Somos a primeira geração que tenta curar-se enquanto cria os próprios filhos. Esta realidade traduz um desafio profundo, muitas vezes invisível aos olhos de quem observa de fora. Ao contrário das gerações anteriores, que frequentemente seguiam modelos parentais sem questionar, hoje há uma consciência maior, uma procura por equilíbrio emocional e uma vontade de quebrar padrões que deixaram marcas.
Executamos duas missões ao mesmo tempo: educamos alguém para o amanhã e revisitamos dores antigas que carregamos da nossa própria infância. Esta tarefa exige atenção, tempo, humildade e muita coragem. Envolve olhar para dentro, identificar feridas, reconhecer repetições e fazer escolhas diferentes. Tudo isto enquanto cuidamos de seres pequenos que dependem de nós para aprender sobre o mundo, sobre os afectos e sobre eles próprios.
Reconstruímos a nossa história enquanto criamos outra. Este processo pode parecer pesado porque é profundo. Exige reflexão e esforço emocional. Não é falha, é evolução. Não se trata de perfeição, mas de consciência e responsabilidade afectiva.
É importante reconhecer que o peso não vem apenas da parentalidade em si, mas do esforço de quebrar padrões, interromper ciclos e responder de forma diferente do que aprendemos. Quando a nossa primeira reacção é gritar, controlar ou desvalorizar, mas escolhemos dialogar, validar e orientar, estamos a transformar um sistema inteiro. E esta escolha, que parece pequena, consome energia e disciplina.
Há cansaço porque existe intenção e há desgaste porque existe responsabilidade emocional. Mas o cansaço, neste contexto, não significa fracasso. É sinal de mudança, amadurecimento e evolução relacional. Muitas famílias vivem esta fase em silêncio, sem perceber que este esforço é, na verdade, um acto de amor com impacto geracional.
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