Há uma imagem que se repete diariamente em milhares de casas. Um casal entra no quarto depois de mais um dia de trabalho, preocupações, trânsito, filhos, tarefas domésticas e responsabilidades. Deitam-se na mesma cama. Estão lado a lado. Mas, em vez de conversarem, cada um pega no seu telemóvel.
Respondem a mensagens, percorrem as redes sociais, veem vídeos, consultam notícias ou respondem a e-mails. Os minutos passam. Depois passam horas. O silêncio instala-se. Apagam a luz e adormecem sem uma conversa, sem um abraço, sem um beijo e, muitas vezes, sem qualquer momento de verdadeira proximidade.
Esta realidade tornou-se tão comum que quase deixou de causar estranheza. No entanto, quando olhamos com atenção, percebemos que o problema não está apenas no telemóvel. O telemóvel é apenas o reflexo de uma sociedade cada vez mais cansada, mais acelerada e mais desligada de si própria.
A intimidade entre duas pessoas raramente desaparece de um dia para o outro. Vai-se perdendo lentamente. Primeiro deixam de conversar tanto. Depois deixam de se tocar com a mesma frequência. Os gestos de carinho tornam-se mais raros. O desejo começa a diminuir. A relação transforma-se numa rotina de horários, obrigações e responsabilidades. Muitas vezes continuam a existir amor, respeito e amizade. O que desaparece é a energia necessária para viver esse amor.
É precisamente aqui que muitas pessoas cometem um erro. Acreditam que a diminuição do desejo sexual significa que a relação terminou ou que deixou de existir atração. Em muitos casos, isso não corresponde à realidade. A perda da libido pode resultar de alterações muito mais profundas no organismo e não apenas de problemas na relação.
O desejo sexual é um processo extremamente complexo. Não depende apenas das hormonas nem apenas dos sentimentos. Resulta de uma interação permanente entre o cérebro, o sistema nervoso, o equilíbrio hormonal, a circulação sanguínea, o metabolismo, a qualidade do sono, a saúde emocional e o estado geral do organismo. Quando um destes sistemas perde o equilíbrio, os restantes acabam muitas vezes por ser influenciados.
O stress é um dos maiores inimigos da intimidade. Quando o organismo permanece durante semanas ou meses em estado de alerta, aumenta a produção de cortisol. Esta hormona é essencial para responder a situações de perigo, mas quando permanece elevada durante demasiado tempo pode interferir com diversos mecanismos fisiológicos relacionados com a energia, o humor e o desejo sexual. Ao mesmo tempo, a ansiedade mantém o cérebro permanentemente ocupado com preocupações, dificultando o relaxamento e a entrega ao momento presente.
O cansaço constante também desempenha um papel determinante. Uma pessoa que acorda já cansada, que sente falta de energia durante todo o dia e que chega a casa completamente esgotada dificilmente terá disponibilidade física e emocional para viver a intimidade com naturalidade. O organismo estabelece prioridades. Quando sente que está em esforço permanente, concentra-se nas funções essenciais à sobrevivência e reduz aquilo que considera secundário naquele momento.
A qualidade do sono representa outro fator fundamental. Dormir mal não significa apenas acordar com sono. Durante o descanso noturno ocorre uma complexa regulação hormonal, recuperação física, reparação celular e reorganização de inúmeras funções cerebrais. Quando esse descanso não acontece de forma adequada, o organismo perde capacidade de recuperação e isso reflete-se na energia, no humor, na memória, na concentração e também na libido.
As alterações hormonais influenciam igualmente a forma como homens e mulheres vivem a sexualidade. Na mulher, a menopausa, a pré-menopausa, alterações da tiroide, o pós-parto ou outras mudanças hormonais podem provocar modificações importantes no desejo sexual. No homem, a diminuição da testosterona, problemas metabólicos, excesso de peso, doenças cardiovasculares ou diabetes também podem interferir na vitalidade e na função sexual.
Existem ainda muitos outros fatores frequentemente esquecidos. Uma alimentação desequilibrada, processos inflamatórios persistentes, sedentarismo, excesso de peso, determinados medicamentos, baixa autoestima, ansiedade, depressão ou até o desgaste provocado por anos de excesso de trabalho podem influenciar profundamente o funcionamento do organismo.
Por isso, reduzir a perda da libido apenas à rotina do casal ou à passagem dos anos é, muitas vezes, simplificar um problema que merece ser compreendido de forma muito mais abrangente.






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