Vivemos, hoje, numa contradição evidente e quase caricata: o mérito, em vez de ser celebrado, tornou-se motivo de desconfiança. O sucesso passou a incomodar e quem conquista algo sente-se frequentemente obrigado a justificar ou relativizar esse sucesso, como se o progresso pessoal ofendesse a sensibilidade coletiva. Cresceu a sensação de que mostrar resultados é sinónimo de arrogância, quando na realidade deveria ser motivo de orgulho e inspiração.
É claro que não partimos todos do mesmo ponto. Existem desigualdades reais e circunstâncias muito diferentes que moldam oportunidades e trajetórias. Porém, esse facto não transforma automaticamente quem luta, trabalha e ultrapassa dificuldades num opressor, nem quem se resigna, cruza os braços ou permanece imóvel num herói incompreendido. A narrativa que vitimiza o imobilismo e demoniza o esforço é uma distorção perigosa que empobrece a sociedade e desvaloriza quem tenta evoluir.
Curiosamente — e isto é cultural — a figura do “humilde” recebe mais simpatia imediata do que a figura de quem alcança sucesso visível. Importa, contudo, fazer uma distinção essencial: a verdadeira humildade é uma virtude admirável. E também é verdade que não precisamos de muito para sermos felizes; há valor no contentamento e na simplicidade. O problema não está na humildade em si, mas na instrumentalização da humildade pelos invejosos, que a usam como arma para diminuir quem brilha. Assim, apresentar resultados torna-se suspeito, como se estivesse associado a mania da superioridade.
Confundimos justiça com igualitarismo raso. Noções distintas são tratadas como sinónimos, e nesse ambiente a inveja consegue mascarar-se de virtude. O esforço passa a ser visto como presunção, e o conformismo reivindica para si o estatuto de vítima. Quando o mérito deixa de ser reconhecido e o reconhecimento passa a ser encarado como afronta, o tecido social degrada-se e instalamos uma lógica de nivelamento por baixo.
Nesse contexto surge um fenómeno curioso: vemos com muito mais frequência o pobre criticar o rico do que o rico criticar o pobre. A crítica costuma vir de baixo, não necessariamente por razão social ou política, mas porque é sempre mais simples atacar do que construir. Criticar implica zero responsabilidade; construir exige trabalho, sacrifício, disciplina e paciência — atributos que nem todos estão dispostos a desenvolver. Atacar o outro oferece uma ilusão de superioridade moral, mesmo que não se tenha feito rigorosamente nada.
O avanço que deveria inspirar, ensina e abrir horizontes acaba por ameaçar o ego de quem não luta. O desconforto nasce da auto-comparação silenciosa, dessa sensação íntima de “poderia ser eu, mas não sou”. E como nem todos conseguem lidar com essa frustração, transformam-na em crítica, desprezo ou sarcasmo. É uma reação defensiva conhecida: quando não conseguimos subir, tentamos puxar o outro para baixo.
A verdade é simples: quem teme o sucesso alheio dificilmente encontra o seu próprio. É impossível prosperar olhando para o lado com ressentimento. Por isso, a recomendação é clara: brilhe, e não se acanhe. Não diminua as suas conquistas para caber nas expectativas alheias. Não tema as más línguas, nem os murmuradores, nem os que fazem da inveja um estilo de vida.
Este fenómeno, embora exista em vários países, é especialmente visível em Portugal. Noutros lugares a admiração supera a maledicência; o sucesso é motivo de orgulho nacional, não de picardia. Aqui, ainda se ouvem expressões do género: “Até comprava aquele carro, mas vai dar que falar…” ou “Não quero dar nas vistas.” A preocupação social ultrapassa, muitas vezes, a vontade individual, e com isso desperdiça-se liberdade e realização.
A conclusão desta reflexão , afinal, é bastante simples: trabalhe, lute e use o seu dinheiro como quiser. Se preferir uma vida simples, minimalista e serena, excelente — desde que não critique quem escolhe diferente. E, inversamente, quem vive uma vida ambiciosa, com objetivos materiais ou profissionais elevados, jamais deveria menosprezar quem se sente feliz com o que já tem. O respeito é a base da convivência e a liberdade de escolha é o que torna as sociedades saudáveis.
No fim, é isto que importa: que cada um construa a vida que deseja, sem inveja, sem vergonha e sem medo de brilhar.
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