Nem todas as pessoas que estão mal desejam melhorar ou libertar-se daquilo que as fere. Muitas habituaram-se tanto à própria dor que já não conseguem imaginar a vida fora dela. A dor tornou-se familiar, previsível e, por isso, mais «segura» do que o desconhecido. E, pior do que isso, não querem ficar sozinhas nesse «buraco».
Este «buraco» pode ser emocional, psicológico ou até relacional. Pode ser uma depressão, uma relação tóxica, um ciclo de auto-sabotagem, um vício, um trauma antigo ou simplesmente um conjunto de escolhas que impedem o avanço. A forma varia; o efeito é sempre pesado.
Quando o medo da mudança pesa mais do que a dor
Perante o medo da mudança, o sofrimento torna-se um lugar conhecido. Há pessoas que vivem anos nesta espécie de escuridão interior — não porque gostam dela, mas porque não conhecem alternativa. A ausência de perspetiva é, por si só, uma prisão.
Nessas circunstâncias, agarram-se a quem passa e arrastam para o mesmo lugar quem poderia seguir em frente. Não o fazem por maldade, mas por medo, insegurança ou incapacidade de conceber uma alternativa. Muitas vezes, surge de forma subtil, através de constantes pedidos de atenção, chantagem emocional ou dependência afetiva. O objetivo não é controlar o outro, mas evitar a solidão dentro da dor.
A diferença entre apoiar e sacrificar-se
Por isso, importa distinguir quem realmente precisa de apoio de quem apenas procura companhia na própria estagnação. Apoiar não é salvar. Amar não é carregar. Estar presente não é descer para o buraco.
Não temos o dever de carregar o peso que pertence a outros. Podemos oferecer a mão, dar ajuda e compreensão, mas nunca à custa da nossa paz nem do nosso caminho. Ajudar alguém à custa da nossa saúde mental não é solidariedade — é auto-abandono.
Autocuidado não é egoísmo — é uma necessidade
Existe um limite saudável entre ajudar alguém e permitir que nos arraste para baixo. Identificar esse limite é um acto de autocuidado, que não é egoísmo — é uma necessidade.
Quem ignora este limite passa por fases de desgaste emocional, culpa, frustração e, muitas vezes, adoecimento psicológico. A empatia deixa de ser virtude e transforma-se em prisão quando não é acompanhada de limites claros.
Quando ambas as pessoas precisam de terapia
Em muitos casos, ambas as partes precisam de terapia, ainda que por motivos diferentes:
⸻
1. A primeira pessoa: a que está presa no «buraco»
A terapia ajuda esta pessoa a:
• reconhecer que está num lugar de sofrimento;
• identificar a origem da dor e dos padrões repetidos;
• desenvolver ferramentas emocionais para lidar com o mundo;
• reconstruir a autoestima e a autonomia;
• imaginar uma vida possível fora do sofrimento.
Muitas vezes, quem está neste lugar vive sem referências internas de estabilidade ou amor próprio. Alguns cresceram em ambientes onde a dor era normalizada, onde não existia expressão de emoções ou onde nunca aprenderam a pedir ajuda. A terapia abre portas internas que estavam trancadas há anos e mostra caminhos que a pessoa nem sabia existir.
⸻
2. A segunda pessoa: a que tenta salvar toda a gente
Já a pessoa que «desce ao buraco para não deixar o outro sozinho» também precisa de terapia, porque:
• assume responsabilidades emocionais que não são suas;
• sente culpa quando estabelece limites;
• acredita que amar é salvar;
• carrega uma carga emocional que não lhe pertence;
• negligencia a própria vida para «ser útil».
Este comportamento pode ter origem em padrões aprendidos: necessidade de agradar, medo de rejeição, dinâmica de «salvador» dentro da família ou crença de que só merece amor quando está a resolver o que é dos outros. Na terapia, aprende a distinguir empatia de auto-sacrifício, amor de dependência e ajuda de resgate.
⸻
Quando ambas procuram ajuda especializada, a relação deixa de ser um ciclo de dependência e passa a ser uma oportunidade real de crescimento. Um aprende a sair do buraco; o outro aprende a não descer para lá.
Consciência antes de julgamento
Reconhecer tudo isto não é julgamento — é consciência. É olhar para as relações humanas com maturidade e entender que o amor, a amizade ou a empatia não exigem que nos anulemos. Cuidar de nós é a única forma de cuidar verdadeiramente de alguém.
No fim, só conseguimos estender a mão a alguém quando temos os pés firmes no chão. E só é possível amar alguém sem perder a nós próprios quando percebemos que salvação não se força, mudança não se impõe e cura não se faz sozinho.
comentarios recentes